O Artigo

Agrobiotecnologia: oportunidade ou ameaça?
José Roberto Rodrigues Peres, Diretor-executivo da Embrapa
Data: 06/07/2009

O nível de investimento em biotecnologia agrícola deve ter uma relação direta com a importância da agricultura na economia do País. Vários estudos indicam que o Brasil poderá ter um impacto substancial no setor da agropecuária e na sua economia, dependendo dos investimentos neste setor.

O desenvolvimento da agrobiotecnologia em nosso País nos últimos anos, embora significativo, está bem abaixo do necessário. Vários núcleos de competência vêm se estabelecendo, mas quando comparados numericamente com os dos países desenvolvidos deixam muito a desejar. Só para exemplificar, uma empresa americana criou, em 1984, um laboratório de biotecnologia que emprega 1200 pesquisadores, sendo 270 especialistas com doutorado, número superior a todos os PhD existentes no Brasil atuando nesta área.
Nas décadas de 60 e 70 a Revolução Verde foi a principal responsável pelo grande avanço na produção de alimentos no mundo. Entretanto, ela tornou a agricultura mais dependente de insumos e maquinarias que, quando usados de maneira inadequada, degradam e poluem o meio ambiente. No próximo século o fator determinante no aumento da oferta alimentar, em equilíbrio com a natureza, chama-se "biotecnologia".

O emprego da agrobiotecnologia para o desenvolvimento de novos produtos e processos será fator de importância estratégica para o Brasil. Caso contrário corremos um forte risco de dependência tecnológica, compromentendo seriamente as nossas vantagens competitivas no setor agropecuário. Já existem exemplos de disputas entre empresas, no mundo, pelo domínio de novas tecnologias geradas pela biotecnologia. É a luta pelo direito de produzir e vender produtos agrícolas geneticamente aprimorados, como as plantas transgênicas. Estudos prevêem que somente no mercado de sementes destas plantas transgências, o valor global, que era de 8 milhões de reais em 1985, atinja 6,8 bilhões de reais no ano 2000. Em pouco mais de 10 anos de pesquisa, já estão sendo comercializadas novas variedades de milho e algodão transgênicos possuidores de substâncias que controlam significativamente algumas pragas, além da soja capaz de resistir ao emprego de determinados herbicidas. Temos também que acelerar a obtenção de plantas transgênicas no Brasil, sob o risco de no futuro próximo pagarmos "royalties" para utilização destas "variedades estangeiras" e perdermos a oportunidade de ser de fato o celeiro do mundo. A Embrapa já está fazendo parcerias com algumas empresas que detêm "gens"e tecnologias para obtenção de produtos com estas características agronômicas desejáveis.

No Brasil temos outras potencialidades para o uso da agrobiodiversidade visando uma agricultura sustentável. A riqueza de nossa biodiversidade pode ter um grande impacto no elevação da oferta de alimento, se aumentarmos os investimentos em pesquisa para acelerar a caracterização da carga genética de nossas espécies nativas até agora desconhecidas. Para ilustrar este fato podemos citar como exemplo uma planta nativa de cerrado chamada "lobeira"que tem alta produtividade em solos pobres por ter algum mecanismo de adaptabilidade que aumenta sua capacidade de absorver nutrientes. Esta planta é da mesma família do tomate, o que permitiria, depois de identificados e isolados estes gens, se obter um tomate transgênico que produzirá sem a necessidade de aplicação de altas doses de adubos químicos.

Finalmente, para a biotecnologia se tornar, de fato, o novo paradigma da agricultura no próximo século, é necessário que o Brasil determine com precisão a sua política de modernização agro-industrial e em ciência e tecnologia nesta área. Será necessária, também, a alocação de recursos e a realização de investimentos, tanto no setor público como no setor privado, que garantam níveis elevados de independência tecnológica. Caso isto não ocorra todo o nosso potencial poderá tornar-se uma ameaça para a soberania de nossa agricultura.


 
 
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