O Artigo

Impactos da Biotecnologia e da Bioeconomia
Maurício Antônio Lopes e Mauro Carneiro são, respectivamente, Chefe de Pesquisa & Desenvolvimento e pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
Data: 07/07/2005

Os avanços da biotecnologia, representados pela engenharia genética, genômica e tecnologias de clonagem animal, nanobiotecnologia, dentre outras, estão transformando os mercados e ampliando o leque de oportunidades em diversos campos do conhecimento e da indústria. Para o Brasil, o desenvolvimento da biotecnologia poderá ter impacto decisivo na intensificação e diversificação das cadeias e processos produtivos, por intermédio de inovações que garantam a sustentabilidade do agronegócio frente ao acirramento do mercado global.

O sofisticado embasamento técnico e a natureza genérica da biotecnologia moderna estão possibilitando o desenvolvimento de imensa gama de produtos e processos, criando uma nova indústria e influenciando os rumos da economia mundial. As indústrias alimentar, farmacêutica, química, da saúde, da energia e da informação estão se agregando de forma nunca antes imaginada. As fronteiras entre negócios tradicionalmente distintos já estão se integrando e esta grande convergência está gerando o que promete ser a maior indústria do planeta - a bioindústria.

Produção de energia renovável, de matérias primas e moléculas bioativas para os mais variados ramos industriais prometem ampliar o leque de utilidades de sistemas biológicos, criando oportunidades para que a agricultura ocupe cada vez mais espaço dentre as indústrias mais sofisticadas do mundo. A biotecnologia, conforme suas primeiras conquistas estão indicando, pode estabelecer uma base científica e tecnológica radicalmente nova, capaz de revolucionar o tratamento de muitos dos desafios impostos ao agronegócio, permitindo o rápido e preciso desenvolvimento de plantas, animais e microorganismos melhorados com grande diversidade de atributos, além de processos industriais mais eficientes e ambientalmente corretos.

Para que a agricultura brasileira avance e ocupe cada vez mais espaço na moderna bioeconomia, substanciais investimentos em inovação terão que ser realizados, de forma a ampliar o leque de utilidades da agricultura tropical, garantindo sua funcionalidade frente às mudanças de clima. A intensificação dos estresses térmicos, hídricos e nutricionais, além do aumento da pressão de pragas e doenças, são problemas inevitáveis para o agronegócio nos trópicos, na medida que se realizam as previsões de aumento das temperaturas globais. A possibilidade de se introduzir e/o ou modular caracteres de plantas e animais, permitindo ganhos de adaptação a ambientes limitantes, com redução no uso de insumos caros ou indesejáveis do ponto de vista ambiental, terá grande impacto em regiões tropicais. Ademais, para preservar os ambientes naturais, ainda abundantes no país, tecnologias inovadoras para produção sustentável nas áreas já em uso terão que ser desenvolvidas.

Interessantemente, as tecnologias para agricultura tropical desenvolvidas pelo Brasil se tornarão cada vez mais atrativas para os países de clima temperado, na medida em que suas atividades agrícolas tiverem que se adaptar a climas mais quentes. Assim, ao investir em capacidade tecnológica para superação desses desafios, o país poderá conquistar posição de exportador de tecnologias críticas para uma gama cada vez mais ampla de clientes, inclusive nos países desenvolvidos.
A evolução e transformações no vasto campo da biotecnologia moderna se processam em grande velocidade. O impacto do homem nos sistemas naturais, em diversos níveis (microscópico a global) aumenta na medida em que o nosso conhecimento acerca dos sistemas biológicos evolui. Estas duas tendências - aumento do conhecimento e capacidade técnica e aumento da escala do impacto humano - criam uma série de intersecções e incertezas, oportunidades e riscos relacionados a sistemas biológicos. Assim, é urgente que se examine, de forma objetiva, as complexas intersecções de forças aqui envolvidas - biológicas, econômicas, políticas e culturais - para buscar compreender e antever cenários plausíveis para o desenvolvimento da bioindústria e da bioeconomia no Brasil.

É essencial que os nossos líderes empresariais, formadores de opinião e formuladores de políticas públicas compreendam que a biotecnologia não é simplesmente uma vertente de inovação ‘portadora de futuro, mas uma realidade que está mudando radicalmente o modo de operação de grande parte das atividades humanas. É, portanto, urgente que o país desenvolva uma agenda positiva para o desenvolvimento da sua bioindústria, se colocando entre os protagonistas e líderes desses avanços do conhecimento em benefício da sustentabilidade e competitividade dos nossos setores agroalimentar e agroindustrial.

A Embrapa tem contribuído de forma decisiva para o desenvolvimento da biotecnologia no país, provendo suporte ao planejamento estratégico, avaliação de riscos, desenvolvimento de produtos e processos inovadores. Os avanços da empresa e de seus parceiros no desenvolvimento de plantas transgênicas (soja, feijão, mamão, batata, algodão, etc), clones bovinos, informações genômicas (café, banana, eucalipto, bovinos, etc), além de iniciativas pioneiras em análise de biossegurança, indicam que a Embrapa saber lidar com o tempo de rápida transformação e avanço do conhecimento, produzindo inovações em idéias, processos, produtos e serviços.

Como organização que tem estado atenta ao que acontece no mundo, estabelecendo estratégias de avaliação das mudanças nas relações internacionais, no desenvolvimento científico e na dinâmica do mercado de tecnologias, a Embrapa está pronta a contribuir para que o Brasil tenha um ambiente institucional favorável ao desenvolvimento e aplicação segura de inovações biotecnológicas que garantam ao País competir, com sucesso, por um mercado global que promete grandes mudanças.


mlopes@cenargen.embrapa.br, mauro@cenargen.embrapa.br



 
 
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