O Artigo

A água que falta e a água que exportamos
Julio Cesar Pascale Palhares, DSc, Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves - Núcleo de Meio Ambiente, Avaliação de Impactos Ambientais e Gestão Ambiental
Data: 09/06/2009

Nos últimos dias o país está atravessando duas tragédias hídricas. As
inundações no Nordeste e Norte do país e a seca em algumas regiões do Sul.
Nada mais natural para um país de dimensões continentais, suscetível a diversas
intempéries climáticas. Nada mais natural para um planeta que coleciona dívidas
ambientais e toda dívida, um dia é cobrada!
No caso da região Sul, uma questão chama a atenção. As regiões que
mais sofrem com a seca tem seu perfil econômico baseado nas atividades
agropecuárias. Estas são grandes demandantes de água em quantidade e
qualidade. Estima-se que no Brasil a demanda hídrica dessas atividades equivale
a 70% do consumo do país.
Basicamente, estas atividades consomem águas superficiais e
subterrâneas, águas disponíveis nos solos e a devolvem na forma de evaporação,
transpiração e esgotos. Avaliando este ciclo hídrico podemos calcular a pegada
hídrica de cada produto e a água virtual presente neste. Estes conceitos surgiram
no final do século XX e hoje são utilizados como instrumentos de gestão dos
recursos hídricos seja por um indivíduo, região nação ou empresa.
A pegada hídrica média no mundo é 1.243 m3/pessoa/ano. No Brasil a
média é 1.381 m3/pessoa/ano, Japão 1.153, Argentina 1.404, Estados Unidos
2.483, Federação Russa 1.858. Vários fatores contribuem para o aumento da
pegada, o que é negativo do ponto de vista ambiental. Elevada produção
agropecuária e uso ineficiente da água são dois deles, presentes nas regiões que
hoje sofrem com a seca.
A elevada pegada hídrica está relacionada à exportação de água. A
chamada água virtual. A exportação de água de um país ou região é o volume de
água associada à exportação de produtos ou serviços a partir do país ou região.
Ou seja, quando produzimos um quilograma de milho ou de carne e exportamos
estes produtos para outros Estados e/ou países, consumimos e água do local,
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mas os produtos originários deste consumo não são consumidos no local, mas
sim por outros. Quando eles compram grãos, carnes e leite estão usando sem
custo algum a água necessária para produzir todos esses produtos e que é de
extrema qualidade.
Estudos internacionais demonstram que a produção vegetal que mais
consome água é o arroz, seguido do trigo. O milho ocupa a terceira posição,
consumindo 900 L/kg de grão. No caso da pecuária os maiores consumidores
são os bovinos de corte, sendo necessários 15.500 L/kg de carne. A carne suína
consome 4.800 L/kg de carne e a de frango 3.900 L/kg de carne.
Tomando como exemplo a região do Meio Oeste Catarinense, que
anualmente é atingida pela seca, as produções agropecuárias mais consumidoras
de água fazem parte do perfil produtivo da região. Essa é uma realidade curiosa.
A região sofre com a escassez, mas é uma das maiores exportadoras de água do
país na forma de carnes e leite para outros Estados e países.
A pergunta é: então não há escassez? Sim, ela existe. E o grande
motivo para ela existir é a condição climática, mas se a exportação de água não
fosse tão elevada, certamente os efeitos da seca seriam menores.
Culpados! Sempre queremos achá-los. Mas não é uma questão de culpa
e sim de decisão. A sociedade do Meio Oeste, bem como outras, decidiu que
teria esse perfil econômico e que supria os mercados internos e externos com
seus produtos, ou seja, decidiu ser uma exportadora de água. Decisões podem
ser revistas a qualquer tempo.
Ações podem ser implantadas a fim de reduzir os efeitos da seca. O uso
eficiente da água nas criações animais é uma delas. Mas a mais importante é a
conservação da água em seus reservatórios naturais, o solo e as matas. Esses
dois compartimentos funcionam como esponjas e quanto mais degradados,
menor o poder de absorção e mais severos os efeitos da seca.


 
 
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